
Enquanto a avó procurava por toda a casa ele continuava sentado, mudando os canais da tv compulsivamente. Fingia não ouvir quando a velha lhe perguntava se tinha idéia de onde estavam seus óculos.
Morava com a avó desde que mãe fora tentar a sorte na Espanha. Abandonara a escola e passava os dias perambulando pelos bares da vizinhança. Nunca devolvia o troco do dinheiro para comprar pão e leite. Guardava-o para a cachaça ou comprar drogas dos amigos traficantes.
No princípio, odiara viver com a avó. Depois, acostumou-se e, aos poucos, foi transformando-a em sua empregada. Tratava-a com desdém, apesar dos mimos que o amor de vó lhe propiciava. Praticava pequenas crueldades com a velha, como se isto vingasse sua existência vazia.
A avó parou em sua frente e disse: "acho que perdi meus óculos, não consigo achar. Sempre deixo na mesinha de telefone... Você não encontrou eles por aí?".
"Não". Respondeu seco e a velha continuou a revirar os cômodos da casa em busca dos óculos perdidos.
Ele desligou a tv, levantou-se do sofá, retirou os óculos do rosto e os colocou na mesinha do telefone, abriu a gaveta, pegou alguns trocados e foi para o bar.
