Os óculos perdidos


Enquanto a avó procurava por toda a casa ele continuava sentado, mudando os canais da tv compulsivamente. Fingia não ouvir quando a velha lhe perguntava se tinha idéia de onde estavam seus óculos.

Morava com a avó desde que mãe fora tentar a sorte na Espanha. Abandonara a escola e passava os dias perambulando pelos bares da vizinhança. Nunca devolvia o troco do dinheiro para comprar pão e leite. Guardava-o para a cachaça ou comprar drogas dos amigos traficantes.

No princípio, odiara viver com a avó. Depois, acostumou-se e, aos poucos, foi transformando-a em sua empregada. Tratava-a com desdém, apesar dos mimos que o amor de vó lhe propiciava. Praticava pequenas crueldades com a velha, como se isto vingasse sua existência vazia.

A avó parou em sua frente e disse: "acho que perdi meus óculos, não consigo achar. Sempre deixo na mesinha de telefone... Você não encontrou eles por aí?".

"Não". Respondeu seco e a velha continuou a revirar os cômodos da casa em busca dos óculos perdidos.

Ele desligou a tv, levantou-se do sofá, retirou os óculos do rosto e os colocou na mesinha do telefone, abriu a gaveta, pegou alguns trocados e foi para o bar.

A distinta morte


A distinta Morte passeia pelo cemitério
acariciando as lápides bem conhecidas
vidas ceifadas no auge da beleza
outras gastas até o último suspiro
deleita-se com seu inevitável sucesso
sentindo o perfume de sonhos apodrecidos
consumidos pelo fogo das paixões fatais
ou gastos na rotina de amores eternos

Na beira d'água parada


Foi noite de lua cheia
Na beira d'água parada
Ouvi a moça sereia
Com sua voz encantada

Cantiga de lua cheia
É mágoa de abandono
Chamava a moça sereia
"Seu moço vem ser meu dono"

Cantiga que faz ninar
Na voz da moça encantada
Quase me deixo quedar
Na beira d'água parada